Segunda-feira, 12 de Março de 2007

Abril é (R)evolução?

O 25 de Abril chegou este ano carregado de polémica. Uma polémica ligada à velha incoerência de Abril ser (R)evolução. Rodeado pela falta de quórum no parlamento, ora pela proibição de festejos num sítio, ora pelo início de festejos noutro e também até pela não envergadura de símbolos por certas figuras, vemos esta querida data chegar carregada de  uma infeliz hipocrisia.

 

Uma das grandes polémicas dadas a conhecer ao povo português ultimamente foi a triste e desesperante atitude de muitos dos deputados da AR para com os seus deveres políticos. Devido a uma atitude de latência e irresponsabilidade, certos deputados das bancadas da Assembleia decidiram fugir ao que eles encaram como sendo "deveres" (mas que para muitos injustiçados seriam "direitos") de votarem e comentarem os assuntos pendentes para o bom funcionamento do país. Como tal, decidiram tirar umas fériazitas de toda essa azáfama do mundo da politica e fazer com que a Assembleia por  falta de quórum não pudesse legislar tal e qual como o país precisa e exige dos seus políticos. O país ficou legislativamente em suspenso devido à desconsideração e desrespeito que os deputados mostraram para com a população portuguesa. Com estas e outras, não se admirem eles de ouvir o povo dizer que "os políticos são todos um bando de ladrões e gatunos". Chega-nos o 25 de Abril e pensamos: o que é que mudou desde o tempo das "vacas gordas" e do poderio corrupto? Estarão estes políticos a cumprir e a seguir os ideais de responsabilidade e liberdade política que o povo português conquistou com o 25 de Abril?

 

Por outro lado, e noutras localidades o facto do 25 de Abril chegar é visto como motivo de alegria e de celebração... por estrear. Comum é o facto da população portuguesa sair ás ruas e festejar em várias localidades aquela que foi a data politicamente mais importante para o nosso país em toda a sua história. Libertaram-se as mentes e os corpos daqueles que durante anos foram oprimidos pelo conservadorismo e autoritarismo do regime ditatorialmente salazarista de Salazar e ditatorialmente pseudo-salazarista de Marcelo Caetano. No entanto para algumas pessoas tal facto não era um motivo de celebração e portanto durante 22 anos proibiram todo e qualquer tipo de festejos. Estou a falar do Presidente da Câmara de Marco de Canaveses que, contrariando a óbvia vontade da população, proibiu repetidamente os festejos de Abril naquela localidade. Até parece que voltamos ao tempo do Estado Novo em que concentrações de mentes de esquerda eram proibidas e perseguidas. Teve que ser a vontade do povo, representada através do sistema eleitoral nas Autárquicas a derrubar o Sr. Avelino Ferreira Torres para que este ano fossem estreadas as celebrações de Abril em Marco de Canaveses. Desde que iniciou o seu percurso na Câmara como presidente, exactamente à 22 anos atrás, que tinha oprimiu, tal como Salazar oprimia na altura, a esquerda livre e os seus festejos. O que, por assim dizer, ainda acontece em Portugal. Na Madeira, o Sr. Alberto João Jardim, tal qual Avelino Ferreira Torres fez em Marco de Canaveses, oprime a vontade da população madeirense de festejar a libertação da opressão. Notaram a contradição? Será então que o 25 de Abril acabou com a opressão? Estará o país a caminhar outra vez para o Estado Novo? E ainda mais grave é a hipocrisia de Alberto João Jardim ao querer dar uma lição aos políticos do país, mostrando-se assim como um defensor dos valores de Abril, fazendo com que a segunda-feira passada de 24 Abril fosse "ponte" oficial na Madeira. Enfim... As pessoas querem festejar e trabalhar e na Madeira não lhes é permitido nenhuma delas. Onde está o espírito de Abril nestes dirigentes?

 

Mas dando um exemplo muito mais significativo de como certos “sectariados” não respeitam os valores da revolução dos cravos, temos o caso do maior cargo político no sistema português: o Presidente da República. Não é que Cavaco Silva, mostrando uma precedência carregada com tal desrespeito e desinteresse em perpetuar a tradição da celebração do dia em que a liberdade foi conquistada, foi o primeiro Presidente da Republica a não usar o cravo vermelho na lapela no seu discurso de 25 de Abril para a AR como é costume e como todos os presidentes até agora fizeram como símbolo do apoio à revolução? Então gasta ele as suas pobres cordas vocais cantando estrategicamente a Grândola Vila Morena na campanha para as presidenciais mas quando já não há votos em causa liberta-se da sua falsidade mostrando a sua verdadeira opinião sobre os ideais de Abril não usando um simples cravo vermelho na lapela?  Qual é a diferença entre o euro que custa um cravo e o euro que custa uma pastilha para a garganta usada para cantar a Grândola? Simples interesses puramente eleitorais que nos são demonstrados com uma falsidade de inigualável tamanho.

 

Agora, qual a relação entre todos estes casos? A direita foi a maioria no número de deputados faltosos na AR. Alberto João Jardim é o líder e fundador do PSD-Madeira, núcleo do maior partido de direita em Portugal. Avelino Ferreira Torres foi o cabeça de lista e candidato a presidente da câmara nas listas do PSD do Marco de Canaveses durante 22 anos, logo é um influente membro da direita portuguesa. Cavaco Silva foi eleito Presidente da República com o apoio incondicional de uma direita em peso, foi o protegido de uma das mais notáveis figuras de direita, Francisco Sá Carneiro, esteve sempre ligado ao PSD tendo sido até eleito como primeiro-ministro pelo mesmo, logo negar a sua ligação à direita é uma total contradição. Direita, Direita, Direita. Será então a direita apoiante dos valores e ideais de Abril? Não será  mais esta uma manobra interesseira para de um modo não afectativo das suas ideologias conseguirem captarem votos mais à esquerda debaixo da capa da defesa dos valores da revolução "à sua própria maneira"? Será que a famosa teórica do "Abril é (R)evolução" não é então mais uma das hipocrisias da direita de modo a contrariar todas essas críticas de que,  apesar de Abril ser de todos, se dependesse da direita não tinha acontecido?

 

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